ZUMA_RAE

A Mentira🤥 e o Mentiroso 🤥

 

Havia, numa cidade cercada por muros altos e promessas ainda mais altas, um homem chamado Aureliano Vez.

Era conhecido por sua voz firme, seu olhar treinado diante das multidões e a habilidade de transformar a dor alheia em discurso. Quando subia ao coreto da praça, apontava para as janelas fechadas das fábricas, para as filas dos desempregados, para os bolsos vazios dos trabalhadores e para os palácios dos poderosos.

— Eu vejo o que vocês veem! — dizia ele. — Vejo a falta de emprego, os salários pequenos, a desigualdade que separa irmãos, os desvios de dinheiro, a corrupção escondida atrás de portas douradas. Se me derem a chave da cidade, consertarei tudo.

O povo, cansado de sofrer e desconfiado de todos, encontrou descanso em suas palavras. Afinal, uma promessa bem pronunciada pode soar como verdade para quem há muito não escuta esperança.

Aureliano repetia tanto o seu juramento que, pouco a pouco, deixou de saborear as palavras como quem usa uma ferramenta. Passou a acreditar nelas como quem contempla um espelho.

E venceu.

No primeiro dia no grande palácio, recebeu a chave da cidade. Era pesada, feita de ferro antigo, e abria não apenas os portões, mas também os cofres, os contratos, as nomeações e os silêncios.

No começo, o povo esperou.

Depois, esperou mais.

As fábricas continuaram fechadas, mas agora alguns amigos de Aureliano recebiam licenças para importar aquilo que antes era produzido ali. Os salários continuaram pequenos, mas os banquetes do palácio ficaram maiores. A igualdade foi anunciada em grandes placas, enquanto os parentes do governante ocupavam os melhores cargos. Os desvios, que ele jurara extinguir, apenas trocaram de mãos e aprenderam caminhos mais discretos.

A corrupção não desapareceu.

Apenas passou a usar roupas novas.

Quando os primeiros cidadãos perguntaram por que nada havia sido consertado, Aureliano voltou ao coreto. Ergueu as mãos, inclinou a cabeça com aparente tristeza e respondeu:

— Tudo isso que vocês veem é consequência do passado. Estamos lutando contra inimigos poderosos. Se há desemprego, é porque herdamos ruínas. Se há desigualdade, é porque os antigos governantes plantaram injustiça. Se há desvios, são armadilhas feitas para impedir nosso trabalho.

Alguns ouviram e desconfiaram.

Outros ouviram e repetiram.

Havia entre eles um padeiro chamado Tomé, homem simples e atento. Certa tarde, enquanto entregava pães perto do palácio, viu carruagens saindo carregadas de baús. Viu homens que antes nada possuíam tornarem-se senhores de grandes terras. Viu o povo pagar mais impostos enquanto os amigos do governante compravam casas com jardins e fontes.

Tomé procurou Aureliano e perguntou:

— Senhor, o senhor prometeu fechar os ralos por onde escoava o dinheiro da cidade. Por que agora há mais ralos, e por que todos desembocam nos jardins dos seus aliados?

Aureliano fitou o padeiro por alguns instantes. Poderia ter se irritado. Poderia ter ordenado que o expulsassem. Mas escolheu o caminho que conhecia melhor: falou com suavidade.

— Tomé, você vê apenas a água correndo. Eu vejo o grande rio. Esses recursos são necessários para proteger a cidade. Nem tudo o que parece desvio é desvio. Nem toda riqueza é privilégio. Nem toda crítica é honestidade.

Tomé saiu em silêncio.

Naquela noite, porém, Aureliano não dormiu. Caminhou pelos corredores do palácio e ouviu, ao longe, o povo cantar as frases que ele mesmo havia criado:

“Ele luta por nós.”

“Ele herdou o caos.”

“Ele sabe o que faz.”

“Quem o critica ajuda os inimigos.”

Então Aureliano parou diante de um espelho alto, moldurado em ouro. Olhou para si mesmo e repetiu, quase num sussurro:

— Eu estou consertando a cidade.

Disse uma vez.

Depois outra.

E outra.

Até que a frase, tantas vezes usada para convencer os outros, passou a proteger o próprio homem daquilo que ele já sabia. Naquele instante, a mentira deixou de ser apenas uma veste que ele colocava diante da multidão.

Tornou-se sua pele.

Aureliano já não mentia somente porque desejava poder. Mentia porque precisava acreditar que ainda era o herói que havia prometido ser. E, para não enxergar os próprios desvios, passou a chamar toda verdade de perseguição, toda pergunta de traição e toda prova de calúnia.

Os que o seguiam também passaram a fazer o mesmo.

Não defendiam mais os fatos, pois os fatos eram incômodos. Defendiam a história que lhes dava esperança, pertencimento e a sensação de terem escolhido o lado certo. Aureliano os persuadia com promessas; eles o persuadiam com aplausos. Ele lhes dava uma narrativa para repetir; eles lhe devolviam uma narrativa para habitar.

Assim, o mentiroso tornou-se prisioneiro da própria mentira.

E os persuadidos, sem perceber, tornaram-se seus guardiões.

Muitos anos depois, a cidade ainda tinha desemprego, salários baixos, desigualdade, corrupção e cofres vazios. Mas o palácio permanecia iluminado, e Aureliano continuava diante do espelho, dizendo que estava salvando aquilo que, dia após dia, ajudava a destruir.

Moral

A mentira começa como instrumento de quem quer conquistar poder.
Mas, quando é repetida sem descanso e defendida contra toda evidência, ela deixa de servir ao mentiroso — e passa a governá-lo.

O mais perigoso não é apenas o homem que engana o povo, mas o homem que, depois de enganar tantas vezes, já não consegue distinguir a própria máscara do próprio rosto.

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